quarta-feira, 16 de março de 2011

Convenção do DEM escolhe novo presidente, mas não ameniza o clima de cisão

Por Igor Silveira e Alana Rizzo, do Correio Braziliense

Ao fim da convenção nacional do Democratas, realizada na tarde de ontem, em Brasília, o crachá de participante do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, permanecia sobre a mesa de credenciamento. A ausência do paulista e as respostas pouco convincentes de alguns parlamentares quando perguntados se permaneceriam no partido foram sinais claros de que a sigla, na prática, não tem a unidade que tenta pregar. A eleição dos políticos que permanecerão na executiva nacional até o fim do ano e do senador José Agripino (RN) para um mandato-tampão como presidente foi recado direto à cúpula da legenda: o DEM ganhou um voto de confiança, mas com prazo de validade estabelecido.

Nomes cotados para acompanhar Kassab na empreitada do novo partido, o PDB, estiveram presentes na convenção. A senadora Kátia Abreu (TO), o ex-candidato a vice-presidente da República Índio da Costa (RJ) e o deputado Rodrigo Garcia (SP) afirmaram que continuam no DEM, mas as frases eram sempre acompanhadas da expressão “por enquanto”. Na tentativa de evitar mais desgastes causados pelo assunto, Agripino minimizou a duplicidade presente nos discursos.

“Cabe a mim estabelecer a convivência entre os diversos segmentos do partido. Quem é que não sabe da existência de divergências no PMDB, no PT e em outras legendas? Eu sou um conciliador e a minha missão é promover essa harmonia e dar oportunidade a quem merece”, disse o senador, para, em seguida, alfinetar os possíveis desertores. “Quem for detentor de mandato e optar por sair, o DEM tomará as medidas que a lei recomenda e, em muitos casos, exige.”

As declarações de Kátia Abreu, porém, foram na contramão das palavras de Agripino. De acordo com ela, a desfiliação não está descartada e mudanças na sigla são necessárias. A senadora classificou a gestão do deputado Rodrigo Maia (RJ) como desastrosa e não poupou críticas ao parlamentar, que integra um grupo dentro do partido que teve sérias desavenças com a corrente da qual ela faz parte, ao lado do ex-senador Jorge Bornhausen, um dos fundadores do então PFL.

“A administração de Rodrigo Maia foi terrível, uma decepção nacional. Sofremos uma diminuição violenta por causa de erros gravíssimos e, por isso, o partido chegou onde chegou. Nunca pensei que isso pudesse ocorrer”, disparou. Questionada sobre qual seria o erro mais grave cometido por Maia, ela foi direta: “Foi uma sucessão de erros em termos de comando, mas se pudesse destacar um, diria que foi a falsificação da ata do partido. Foi imperdoável.”

Silêncio


Rodrigo Maia chegou à convenção acompanhado do pai, o ex-prefeito do Rio de Janeiro César Maia, e não quis entrar na polêmica. Sobre os ataques da senadora, respondeu somente que aceitava as críticas, mas que nada iria diminuir o que fez pelo Democratas. Ele aproveitou para destacar que os que compareceram ao evento são os que realmente querem ficar na oposição e que o DEM tem planos de um projeto nacional focando nas eleições de 2014.

Se de um lado as críticas foram muitas, de outro um elogio mexeu com o ex-presidente. Ao compor a mesa que comandou a convenção e a eleição por aclamação de Agripino Maia à Presidência do DEM, Maia foi homenageado pelo líder do partido na Câmara, Antonio Carlos Magalhães Neto (BA). “Rodrigo Maia colocou o interesse coletivo acima dos individuais. Soube ser amigo dos amigos, correto com os companheiros e liderar o DEM como precisávamos”, declarou o baiano. Rodrigo Maia foi às lágrimas.

Estatuto alterado

O ex-presidente do DEM Rodrigo Maia foi acusado de adulterar trechos do estatuto do partido para fortalecer-se e minar adversários. A manipulação serviu como estopim para a guerra interna no Democratas. O documento aprovado por todos afirmava que a atribuição do Conselho do partido era “decidir” sobre alianças e “indicar” os candidatos. Maia alterou o texto e a nova versão afirmava que o órgão deveria “recomendar” alianças e “propor” nomes de candidatos. Em sua defesa, o ex-presidente afirmou que a alteração foi feita para adequar o estatuto à legislação trabalhista.

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