sábado, 20 de novembro de 2010

A arte da esquiva e quando não usá-la faz muito bem

Por Anderson Christian de Souza, do blog "Opino aqui"

No boxe a esquiva é algo tão importante quando um portentoso soco. São rounds e mais rounds em que o lutador, ao esquivar-se, evita ser atingido, óbvio, mas atua também para cansar o adversário e, dessa forma, encontrar o melhor momento para encaixar um golpe para nocautear o oponente.

Já na política é tão corriqueira a prática da esquiva que ninguém nem mais percebe a sutileza que esse ‘bailar’ sobre os ringues das disputas administrativo/eleitorais revela. É lógico que é complicado para um político falar tudo o que pensa e fará, em especial quando ele ocupa um cargo importante e que, pelas suas decisões, a vida de muita gente pode mudar para melhor ou pior.

Mas a desfaçatez da classe política anda tão escancarada que mesmo a esquiva necessária em temas como segurança e economia, por exemplo, onde nem todas as informações podem ser abertas a qualquer momento sob risco de colocar a própria sociedade em perigo, acaba sendo uma atitude confundida com a tal da ‘safadeza’ do político – lugar comum com o qual, infelizmente, a maioria dos políticos parece concordar e até se esmeram para manter.

Por isso que poder participar de uma sabatina com o vice-prefeito de Aracaju e atual secretário municipal de Saúde, Silvio Santos, no Nós no Cabaré – idéia bem legal dos jornalistas Chico Freire, Eliz Moura e Ferreira Filho, que acontece todas as quintas, às 20h, no bar Templo Gelado, rua Joventina Alves, esquina com rua Euclides Paes Mendonça, no bairro Salgado Filho – foi algo tão importante para ver como o debate político pode funcionar de forma afirmativa, sem os mesmos velhos ardis tão empregados nessa prática e que afastam cada vez mais as pessoas de tão importante assunto.

Sílvio encarou

Cerca de 30 pessoas, na maioria jornalistas, não tiveram dó e nem piedade de Silvio Santos durante quase três horas de questionamentos agudos e provocadores, até. Mas eis que o novíssimo secretário de Saúde de Aracaju, apenas três dias após assumir o cargo, não se negou a nenhuma pergunta e de forma firme, mas sem agredir ou reclamar, respondeu a tudo.

E olha que tivemos momentos de emoção aflorada, cutucadas meio que politizadas e, quase que na sua totalidade, questionamentos que atingiam em cheio a ferida da saúde municipal. Mas nada ficou sem resposta. Silvio Santos encarou de frente e foi assertivo, assumiu culpas que nem dele são e, o principal, mostrou que está com muita disposição para acertar.

Claro que para quem não estava no Nós no Cabaré pode parecer que Silvio Santos encarou nesse ‘ringue’ uma platéia amistosa, pelo fato dele também ser jornalista. Mas, creiam, ele teve que suar mesmo para dar conta de tanta demanda. Aliás, confira a matéria completa sobre a essa noitada diferente e produtiva no site da Bella Mafia (http://www.bellamafia.org/2010/11/silvio-santos-anuncia-plano-emergencial.html).

“Corro o risco”

De minha parte, aproveitei para provocar. Perguntei a Silvio se ele acredita que o perfil técnico deve suplantar o político e se assumir essa tarefa da saúde não significava que ele desistiria de disputar a prefeitura de Aracaju em 2012. E não é que o danado devolveu a provocação de forma surpreendente?

Assumiu que pode, sim ,ser candidato, afinal é vice e, como tal, é lembrado para substituir o atual gestor, Edvaldo Nogueira. E que não enxerga diferença entre o técnico e o político, mesmo porque o primeiro, quando atua numa secretaria, por exemplo, atende a um projeto político. “E quem disse que político não pode correr risco?”, asseverou quando respondia sobre as implicações que seu desempenho na secretaria pode ter em seu futuro político.

E nem mesmo quando tirei um velho sarro – que já vem desde os tempos em que trabalhei na cobertura esportiva sergipana – de ‘incentivá-lo’ a concorrer à presidência do Sergipe, seu time do coração, e pedi que ele dissesse quem estava pior, a saúde de Aracaju ou o clube de futebol, ele se esquivou. “Olha, no Sergipe as coisas estão mais próximas de serem resolvidas, pois vem eleição no clube por aí e existem dois candidatos que têm tudo para fazer um bom trabalho”.

Então foi assim, de um jeito franco e direto, que Silvio Santos encarou os golpes que foram desferidos não contra ele, claro, mas contra o atual estado da pasta que ele assumiu recentemente. Diante de tudo o que aconteceu, não fica difícil entender porque ele merece mesmo ser sempre lembrado para disputar a cadeira de prefeito da capital sergipana em 2012.

Com a força de seus argumentos e com a possibilidade de provar, na prática, toda a sua capacidade administrativa, é sem dúvida um forte candidato. Mas, se isso ocorrer, de qualquer forma a população já sai ganhando por não ter nele, no próximo pleito, um político que se esconde atrás das palavras. Pelo contrário, as utiliza para golpear com um direto a cara dos que, por preguiça, desencanto ou burrice mesmo, insistem em desqualificar todos os políticos pela forma como a maioria deles age, esquecendo que, mesmo que tudo pareça a mesma merda, é preciso separar bem as coisas, já que é na política que se decide a vida da maioria.

Por isso, Silvio, valeu você não se esquivar das perguntas. Sua coragem de encará-las e absorver os golpes mais duros são demonstrações de que os próximos rounds dessa luta nossa por uma vida melhor conta com um lutador de qualidade. E que não vai deixar o povo ir às cordas e nem à lona sem ao menos lutar pra valer, dando às caras e todo o gás necessário. Então, que soe o gongo!

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